A conta é sempre da pessoa física

O fim de tarde de quinta-feira foi de grande agitação e de uma proliferação de rumores poucas vezes vista nas mesas de operação. As conversas envolviam demissões, medidas no câmbio ou ações prudenciais.

No fim das contas, sobrou para o contribuinte, para a pessoa física, que vai pagar mais caro se quiser se endividar.

Depois de muita expectativa e alguma espera, o ministro da Fazenda, Guido Mantega, deu a "canetada", que aliás teve de ser corrigida, pois o ministro anunciou dados errados. O Imposto sobre Operações Financeiras (IOF) sobre crédito a pessoa física subiu de 1,5% para 3%. Segundo o ministro, a ideia da medida é moderar o consumo.

Segundo o sócio da consultoria Global Financial Advisor, Miguel Daoud, essa decisão reforça a percepção de que há certo desespero do governo em conter um processo inflacionário.

No entanto, esse processo não é contido com restrições ao crédito. O crédito é apenas um "componente" da inflação. A inflação, diz Daoud, já está no preço dos alimentos, dos serviços e, principalmente, agarrada à indexação da economia.

"Inflação tem que ter rédea curta. O governo soltou a rédea da inflação e agora está difícil segurar. A alta de preços já está disseminada em todos os setores da economia", diz Daoud.

Ainda de acordo com o especialista, a Fazenda parece quer fazer algo antes da reunião do dia 20 do Comitê de Política Monetária (Copom), para mostrar que também está contribuindo no controle da inflação.

Dia foi de inúmeros rumores até anúncio do IOF no crédito

A reação nas mesas é menos ponderada. Segundo um operador, que prefere não se identificar, a medida é meramente arrecadatória. Afinal de contas, esse aumento de IOF diluído em parcelas que podem ir até 60 meses não deve promover uma retração muito grande de demanda. Sem falar nas modalidades de crédito que não recolhem IOF.

Para esse especialista, seria muito mais eficiente alterar o prazo dos financiamentos. Isso sim leva à redução de demanda, pois com prazos menores, automaticamente o preço das parcelas sobe. E é senso comum que o consumidor médio brasileiro não vê taxa de juros nem tributação, mas sim se o valor da parcela cabe no bolso antes de se endividar.

Outra crítica, mas essa não relacionada à medida, é o como foi preparado o anúncio. Não precisaria avisar à tarde que se falaria algo à noite e criar o maior fuzuê no mercado (conforme veremos abaixo). Bastaria anunciar a decisão, a qualquer momento do dia.

Passando para o mercado de juros, a reação está difícil de prever. Afinal, a medida pode ser lida como uma indicação de que a alta da Selic em abril pode ser menor que 0,50 ponto percentual ou nem mesmo acontecer. Quem nos dirá isso são os vencimentos curtos.

No entanto, isso pode ser encarado como mais uma "fuga" ao uso do instrumento tradicional de política monetária, que é a taxa de juros. Quem dirá isso são os vencimentos longos, que podem ganhar prêmio de risco.

Agora, se o mercado "comprar" a medida, por acreditar em sua eficácia ou por achar que assim o governo vai proceder no combate à inflação, a curva toda pode perder prêmio de risco.

Discutida a medida, vale a pena lembrar o que aconteceu antes do anúncio. Tudo começou com a chamada de coletiva de imprensa feita pela Fazenda para às 18h30. Ao contrário do observado na quarta-feira, não houve reação e o dólar seguiu em baixa.

No entanto, corria pelas mesas que novas medidas cambiais poderiam ser anunciadas. Também circulou durante algum tempo a ideia de que Mantega iria pedir demissão ou colocar o cargo à disposição. Para dar uma ideia de quão fértil é a imaginação do mercado, o ministro já tinha até substituto: Luciano Coutinho, atual presidente do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES).

O quadro mudou de figura e o burburinho cresceu ainda mais conforme saíram notícias dando conta de que o presidente do BC, Alexandre Tombini, falaria junto com Mantega.

Essa "notícia" sim fez preço. Não no câmbio, mas no mercado de juros futuros. Onde os contratos apontaram para baixo no "after market", conforme se criou a expectativa de novas medidas prudenciais.

No fim da tarde, a assessoria do BC negou que Tombini falaria junto com Mantega. No entanto, os dois tiveram uma reunião durante o voo entre Brasília e São Paulo.

Olhando agora o câmbio no dia, os gráficos abaixo ilustram bem como o mercado reagiu à medida de quarta-feira, aquela do IOF de 6% sobre captações externas inferiores a dois anos.

O dólar comercial caiu 1,85%, maior queda diária desde junho de 2010, antes de fechar a R$ 1,584, menor preço desde 6 de agosto de 2008. No ano, a moeda está 4,9% mais barata.

Veículo: Valor - 08/04/2011