Alta de estoques preocupa fornecedores de montadoras

Em meio aos sucessivos recordes de vendas de automóveis no país, um fato novo, o aumento dos estoques, começou a preocupar a cadeia de fornecimento da indústria automobilística. Nos últimos dias, a quantidade de veículos disponíveis para venda passou de médias de 216 mil a 218 mil para um volume próximo de 250 mil unidades.

Não se trata de uma alteração que possa mudar o desempenho de vendas no curto ou médio prazos. O desempenho positivo continua a surpreender a própria indústria. E até o fim do ano não deverá haver redução no ritmo da produção. Os pedidos estão firmes para setembro, outubro, novembro e dezembro. Com médias de mais de 15 mil veículos produzidos por dia, um acréscimo de mais de 30% na comparação com o ritmo de um ano atrás.

Mas, estoques mais elevados trazem um sinal de alerta, um aviso de que o início de 2009 poderá ser menos festivo. Essa inquietação ainda se restringe aos bastidores da indústria de autopeças. A recente elevação nos volumes de estoques é muito recente e pode não estar ainda registrada no balanço que a Associação Nacional dos Fabricantes de Veículos Automotores (Anfavea) divulgará na quinta-feira.

Serve, porém, para indicar que algo mudou no cenário dessa industria. Se na primeira metade do ano havia falta de carros para atender à demanda, a indústria automobilística entrou no segundo semestre com mais produção, sustentada por um aquecimento também de produção na indústria de autopeças, que não pára de investir para acompanhar o fôlego das linhas de montagem. E ainda: a segunda metade de 2008 chega com o lançamento de uma série de modelos de automóveis e com 15 mil empregados a mais do que em meados de 2007.

Soma-se a isso o aperto ao crédito. O financiamento é a principal forma de vendas na indústria de carros. E esse mercado de veículos é sensível a cada medida de restrição. Para fugir do IOF, no primeiro semestre parte dos consumidores se deslocou para o leasing. Com isso, a participação do leasing subiu de 30% para 38% nas vendas dos carros até junho, segundo dados da Associação Nacional das Empresas Financeiras das Montadoras (Anef). No mesmo período, a fatia das vendas por meio do crédito direto ao consumidor recuou de 38% para 25%. As ameaças do governo de taxar o leasing podem alterar o ritmo de um setor cujo fôlego tem sido quase que totalmente sustentado pelo mercado interno.

A produção de veículos no Brasil saiu de 2,6 milhões de unidades em 2006 para 2,97 milhões, em 2007. A previsão é chegar a 3,425 milhões em 2008. No mesmo período, os volumes exportados caíram de 842 mil há dois anos para 789 mil, em 2007. Para 2008 os fabricantes esperam exportar um pouco menos: 780 mil unidades.

As montadoras têm uma extensa agenda de mudanças na linhas de produtos, com diversos lançamentos ainda este ano. Os consumidores mais atentos aos planos de renovação de produtos aguardam a chegada dos lançamentos para trocar o carro. Por conta disso, a indústria ainda vive momentos de euforia. O mercado interno acumula avanço de mais de 28% nos primeiros sete meses do ano, um percentual com o qual ninguém contaria há um ano. Dentro da projeção da Anfavea de produção de 3,425 milhões de veículos em 2008, o mercado interno responderia por 3,060 milhões.

Mas as dúvidas em torno do que vem pela frente já preocupam fabricantes de autopeças que se mostravam otimistas há alguns meses. A TRW, um dos maiores fornecedores de autopeças reviu metas. "Chegamos a prever uma produção de 3,6 milhões de veículos este ano. Mas agora achamos melhor contar com uns 3,5 milhões", diz o diretor Wilson Rocha.

Veículo: Valor Econômico Empresas & Tecnologia 1/9/08 Estado: SP