Crédito ao alcance do bolso de ricos e pobres Oferta de dinheiro para empréstimo no país

A disputa pela oferta de crédito no país está em lados opostos, ou seja, se concentra nos dois extremos da pirâmide social. Consumidores que ganham até R$ 500 por mês responderam por 30,5% da procura por dinheiro no Brasil nos sete primeiros meses de 2010 e estão no topo do ranking, seguidos por trabalhadores com renda mensal acima de R$ 10 mil, que somam 27,4% da concessão de crédito nacional No total, a demanda por crédito cresceu 15,5% de janeiro a julho e 9,3% no mês passado frente a junho (-10,2%), segundo dados divulgados pela Serasa Experian.

De acordo com o gerente de Indicadores de Mercado da instituição, Luiz Rabi, a alta era esperada para julho, já que no mês anterior a Copa do Mundo foi a grande responsável pelo recuo na procura por crédito no país. "Essa recuperação é natural e o que ocorreu foi uma reação", diz o analista. No terceiro trimestre, os consumidores deverão voltar a buscar o crédito, mas em um ritmo mais lento do que o registrado até junhodeste ano. "Sem os incentivos fiscais, como a redução do Imposto sobre Produtos Industrializados (IPI), e com a renda mais comprometida devido aos financiamentos adquiridos no primeiro semestre, a velocidade dos consumidores ao crédito deve ser mais lenta", afirma Rabi.
 
O analista da Serasa explica que as classes mais baixas estão no topo do acesso ao crédito porque foram as que mais reduziram a procura por crédito no ano passado. "A oferta de crédito em 2009 também ficou próxima de zero (-1%) e, por isso, a base de comparação é fraca", destaca. Segundo Rabi, a formalização do mercado de trabalho é outro fator que estimula as classes C e D, por exemplo, a buscar a oferta de dinheiro. "Com carteira assinada e comprovante de renda, o acesso ao crédito fica muito mais facilitado", diz. A procura por crédito de trabalhadores que ganham até R$ 500 por mês aumentou 10,6% em julho em comparação com junho (-5,7%). Se o salário aumentar um pouco, de R$ 500 a R$ 1 mil mensal, o percentual é de 10,2% em relação ao mesmo período, conforme o indicador da Serasa.
 
Por outro lado, as camadas sociais mais altas sempre tiveram mais possibilidade de conseguir crédito e, historicamente, se arriscam mais. "Quem ganha acima de R$ 10 mil é mais propenso a assumir riscos e financiamentos, pois, se ocorrer alguma crise , eles normalmente têm aplicações e conseguem cobrir prejuízos", afirma Rabi. De acordo com o indicador da Serasa, trabalhadores com rendimento mensal acima de R$ 10 mil aumentaram a procura por crédito em 7,2% no mês passado frente a junho (2,6%). Na camada em que o salário fica entre R$ 5 mil e R$ 10 mil, a elevação foi de 7,7%.
 
Acostumado a conceder crédito para trabalhadores que ganham entre R$ 11 e R$ 12 mil, o gerente executivo da Cooperativa de Economia e Crédito Mútuo dos Integrantes do Poder Judiciário da União e do Ministério Público da União (MPU) em Minas Gerais (Coopjus), Igor Miranda, afirma que a procura por dinheiro aumentou 37,5% no primeiro semestre deste ano em relação a igual período de 2010. "Pedidos de solicitação (de crédito) têm crescido bastante e, mesmo no ano passado, não retrocedeu. Nós que tivemos que restringir a oferta por causa da crise", explica.
 
Segundo Miranda, o valor médio mensal solicitado por associados da Coopjus gira em torno de R$ 2 milhões. A grande maioria dos empréstimos - 95% - é feito via consignado. A média de volume pedido por tomador é de R$ 13 mil, mas o limite estipulado pela cooperativa chega a R$ 150 mil. "Em casos específicos, podemos aumentar um pouco mais", diz o gerente executivo. De acordo com ele, o nível de inadimplência é baixo e não esbarra em 1%. "Cobramos juros se 1,37% ao mês e, em geral, os financiamentos são de até 72 meses. Isso dá uma tranquilidade ao nosso associado. Mesmo quando registramos alguma inadimplência, é por fatores específicos, como aposentadoria por invalidez, o que reduz o salário, e nunca por calote", explica.
 
Miranda afirma que a maioria dos trabalhadores procura crédito para ter acesso a bens duráveis. Outro fator seria a migração de financiamento, já que os juros da cooperativa são mais atrativos. "Eles querem comprar automóveis, imóveis urbanos ou rurais, casa de praia. Muitos também trocam o financiamento do leasing pelo da Coopjus, quando descobrem que podem pagar menos juros. Outros planejam até investimentos: compram apartamentos na planta e vendem depois por um preço bem maior".
 
 
Veículo: Diário de Pernambuco 16/08/2010