Empresa média deu mais lucro

O lucro dos bancos cresceu menos nos seis primeiros meses deste ano em comparação com outros semestres e decepcionou os investidores. Mas alguns bancos tiveram desempenho superior à média graças a opções estratégicas que diferenciaram os resultados.

Os piores desempenhos foram dos bancos especializados em crédito consignado, especialmente em operações com beneficiários do INSS. A margem de ganho dessas operações foi pressionada com o aumento do custo de captação. Já os bancos voltados para empresas médias se saíram melhor porque a demanda continuou firme e foi possível repassar os custos.

Impulsionados por injeções volumosas de recursos obtidos em aberturas de capital e pela disparada do crédito, os bancos médios estiveram no topo da onda em 2007, exibindo aumentos de 100% no lucro líquido enquanto os grandes de varejo aumentaram os resultados em cerca de 50%.

O panorama mudou significativamente no primeiro semestre deste ano, quando os bancos que já divulgaram balanço mostraram crescimento de apenas 10,3% no lucro líquido sobre igual período de 2007, segundo levantamento feito pela consultoria Austin Ratings. Os bancos médios aumentaram o lucro em 13,7%, não muito mais do que os 10% registrados pelas grandes instituições.

Mas a rentabilidade média dos grandes bancos foi de 25,4%, acima dos 15,9% dos médios. "Os bancos menores estão encontrando mais restrições para obter fundos. Os grandes começaram a pagar taxas mais elevadas e o dinheiro ficou mais caro ainda para os menores", disse o presidente da Austin Ratings, Erivelto Rodrigues.

O aumento do custo de captação é conseqüência do aperto mundial de liquidez, desencadeado pela crise americana das hipotecas de alto risco. O custo do funding externo subiu, puxando o interno. A procura por recursos domésticos engrossou depois que o Banco Central (BC) criou um compulsório sobre as operações interbancárias com empresas a leasing, tradicional fonte de recursos para os conglomerados, que inviabilizou as novas transações e penalizou o estoque existente.

Rodrigues acredita que a situação vai perdurar neste segundo semestre, com o agravante da mudança das regras de contabilização das cessões de carteira, a partir de 2009. A nova regra altera a contabilização das cessões com coobrigação, encarecendo as operações. Por isso, desde já os bancos vêm reduzindo esses negócios. Pelo que já foi antecipado, a partir de janeiro, o ganho obtido com as cessões com coobrigação terá que ser apropriado ao longo do prazo das operações e não imediatamente, como antes; e o valor cedido afetará o cálculo de alavancagem. "O grande desafio dos bancos médios será manter a liquidez e diversificar o funding", disse Rodrigues.

Mas, a estratégia de operação faz diferença. O BMG, por exemplo teve um dos piores desempenhos entre os bancos médios, com queda de 40,3% do lucro líquido no primeiro semestre para R$ 151 milhões. O BMG é um dos bancos mais focados no consignado para beneficiários do INSS e grande usuário da cessão de carteira - duas características que mais comprimiram as margens neste ano. Já o Banco Cruzeiro do Sul é também especializado em consignado, mas aumentou em 126,8% o lucro líquido para R$ 36 milhões no primeiro semestre. A diferença é que o Cruzeiro do Sul restringe as operações com beneficiários do INSS e prefere operar com funcionários públicos. O presidente Luiz Octavio Índio da Costa lembra sorrindo que foi muito criticado por evitar a corrida dos bancos ao INSS, há cerca de três anos. Ainda assim, o retorno anualizado sobre o patrimônio líquido ficou em 14,9% no BMG e 8% no Cruzeiro do Sul.

Melhor desempenho tiveram os bancos especializados no financiamento para empresas médias, como o BicBanco, que aumentou o lucro em 142,2% nos doze meses terminados em junho, para R$ 197 milhões; o Daycoval, com 54% para R$ 133 milhões; ou o Pine, 34,4% para R$ 80 milhões, que resolveu sair totalmente fora do varejo no final do semestre e se concentrar nos negócios com empresas grandes e médias. "A despeito da política econômica mais restritiva, a demanda por crédito segue forte entre as empresas. As grandes empresas estão mantendo os planos de investimento de médio prazo, puxando o mercado também para as médias", disse o vice-presidente do Pine, Clive Botelho.

Mas isso não significa que operar no varejo não é bom negócio para os bancos médios. O Panamericano e o Sofisa, que optaram por diversificar os negócios com pessoas físicas o máximo possível. 

Veículo: Valor Econômico Finanças 18/8/08 Estado: SP