Dose pode ser exagerada

O aumento do juro básico ainda não foi suficiente para conter a demanda por crédito. Praticamente todos os resultados de bancos referentes ao primeiro semestre já estão publicados, e o crescimento da carteira de crédito da maioria deles ultrapassa 30%. Não raras vezes, entre as instituições financeiras de médio porte, o avanço supera a casa de 50%.

O motivo desse avanço, mesmo com um juro maior também para o consumidor, está nos prazos alongados praticados pelos bancos, assim como pela diferença entre a Selic e as taxas cobradas pelos empréstimos bancários, especialmente no que diz respeito a pessoa física. Basta ver que, enquanto a Selic está em 13% ao ano, o juro do cheque especial, por exemplo, supera 150% ao ano. Dessa forma, o impacto ao consumidor final se torna pequeno ante o tamanho do juro que ele já paga.

O governo tentou, no início deste ano, conter o crescimento do crédito por meio do aumento do Imposto sobre Operações Financeiras (IOF), elevado de 1,5% para 3,38%. Por outro lado, tentou conter a oferta de crédito, aumentando gradativamente o compulsório sobre o leasing até fevereiro de 2009. Assim, esperava evitar que os bancos utilizassem suas empresas de arrendamento mercantil para captar recursos que, posteriormente, eram repassados às instituições para a concessão de crédito. Acontece que os bancos passaram a captar os recursos e direcioná-los sob a forma de contratos de leasing para as operações de financiamento de veículos, assim como para a compra de máquinas e equipamentos por parte das empresas. Dessa forma, houve uma espécie de migração das operações.

O Crédito Direto ao Consumidor (CDC), por exemplo, perdeu espaço nas carteiras de financiamento de veículos, enquanto o leasing abocanhou a fatia deixada. Agora surge a notícia de que o Ministério da Fazenda quer aplicar IOF de 3,38% também sobre as operações de leasing como forma de desaquecer o consumo de forma mais rápida do que vem ocorrendo.

Resta saber se, ao fazer isso, não haverá um exagero na dose de medidas, uma vez que a alta da Selic já está em curso. Esse exagero pode, sim, reduzir o consumo, mas pode também tirar o "nimo dos investimentos do empresariado e, por fim, trazer ao País as taxas de crescimento inferiores a 4% ao ano, novamente.

Veículo: DCI Opinião 18/8/08 Estado: SP