Pressa custa caro na hora de comprar o carro

Nunca foi tão fácil comprar um carro zero quilômetro. Com o fim do IPI (Imposto sobre Produtos Industrializados) reduzido para automóveis flex, promoções mais agressivas nas concessionárias oferecem financiamentos a juros zero ou sem entrada, estampados em cartazes e com forte apelo aos consumidores. Mas especialistas alertam que a conta nem sempre fecha simples assim. Muitas lojas não cumprem o que prometem quando se trata de juros. E em diversos casos é mais barato financiar a compra do carro novo ou usado diretamente no banco e financeira do que na concessionária.

Um exemplo é o financiamento de um Ford Ka 2010, que custa R$ 24.400 à vista. A compra parcelada na concessionária (que cotou taxas no Itaú Unibanco), em 48 vezes e sem entrada, custará ao fim do financiamento R$ 38.448,96. Mas se o consumidor for diretamente no mesmo Itaú Unibanco e financiar o mesmo carro, nas mesmas condições, o custo será de R$ 37.084,80, ou R$ 1.364 mais barato.
 
— O recomendável é sempre procurar várias concessionárias, chorar bastante o preço e depois levar as propostas para diferentes bancos. É preciso ter paciência. Quem estiver com pressa ou comprar por impulso pode perder dinheiro — afirma Nelson de Sousa, do Ibmec-RJ .
 
DIFERENÇA
 
Pesquisa da Pro Teste (Associação Brasileira de Defesa do Consumidor), realizada em janeiro na Zona Sul do Rio, revela que as diferenças de preços e taxas cobrados no mercado são encontradas em concessionárias de diversas marcas, como Ford, Volks, Chevrolet e Fiat.
 
Hessia Costilla, da Pro Teste, diz que há diferentes motivos para um financiamento custar mais caro nas concessionárias. Primeiro, elas atuam como intermediárias de bancos e financeiras. Portanto, ficam com uma parcela das taxas, o que encarece o custo. Também trabalham com diferentes tabelas de juros, que aplicam de acordo com a barganha do cliente. Portanto, quem não “chorar” pagará mais caro.
 
O conhecido consórcio de carros também nem sempre vale a pena, segundo cálculos da associação. Adquirir um carro de R$ 30 mil em um consórcio de 60 meses, por exemplo, é vantajoso apenas quando se é sorteado até o 44mês. Pelas contas, fazendo depósitos mensais do mesmo valor da parcela em um fundo de renda fixa, é possível comprar o carro à vista um ano e quatro meses antes do fim das contribuições ao consórcio.
 
— Quem entra no consórcio não tem pressa de receber o carro. Se pode esperar, seria melhor aplicar mensalmente o dinheiro na renda fixa. Nunca se sabe ao certo quando você será sorteado em um consórcio — diz Costilla.
 
Segundo a pesquisa, as marcas também frequentemente mascaram os juros cobrados. Prometem juros zero, mas elevam as taxas de administração e de abertura de crédito para compensar essa perda. No final do ano passado, o Conselho Nacional de Autorregulamentação Publicitária (Conar) determinou que a Peugeot retirasse de sua página na internet uma propaganda que anunciava a venda do modelo Peugeot 207, com taxa de juros zero.
 
Segundo Francisco Barone, da Fundação Getulio Vargas (FGV), os clientes geralmente não têm conhecimento de matemática financeira para saber a taxa que está sendo cobrada e acabam perdendo dinheiro.
 
— Os consumidores choram desconto, tapete e insulfilm. E acabam comprando o carro quando a prestação cabe no bolso, sem saber ao certo quanto está pagando de juros — afirma o economista.
 
MATEMÁTICA
 
Quem não é familiarizado com matemática financeira deve pedir às concessionárias e bancos o chamado Custo Efetivo Total (CET) — que representa o custo total de um empréstimo ou financiamento. No caso do Ford Ka 2010, por exemplo, o CET da concessionária é de 27,33% e do banco, de 25,21%. Quanto menor o percentual, melhor.
 
Barone sugere ainda usar a calculadora do site do Banco Central (www.bcb.gov.br), na área “Serviços aos Cidadãos”. A ferramenta permite calcular os juros realmente embutidos no financiamento. Basta incluir o valor financiado (o que exclui o dinheiro de entrada, quando houver), o valor das parcelas oferecidas e o número de meses combinados.
 
— E se o cliente já comprou o carro e entende que foi lesado, deve acionar os órgãos de Defesa do Consumidor e pedir o recebimento do dinheiro de volta — afirma Barone.
 
Outro problema apontado pela pesquisa é a falta de informação passada por vendedores sobre o que exatamente está sendo contratado, se um leasing ou Crédito Direto ao Consumidor (CDC). Existem diferenças entre as modalidades. No leasing, por exemplo, só é possível antecipar o pagamento de parcelas após o 24 mês. O leasing tem normalmente um custo menor. Mas um dos motivos disso é a maior facilidade para a empresa credora retomar o carro em caso de inadimplência.

Veículo: Diário do Pará 19/04/2010