IFRS une mercado brasileiro ao mundo e promete trazer ganhos de transparência

À luz da maior integração dos mercados ao redor do mundo nos últimos anos, cresce o sentimento de que deve haver uma padronização nos balanços contábeis, seja para facilitar o olhar do investidor, seja para uma melhor avaliação pelos analistas. No Brasil, todas as empresas listadas em bolsa devem listar seus resultados no padrão IFRS (International Financial Reporting Standard) até o final de 2010, data limite estipulada pela CVM (Comissão de Valores Mobiliários) para a adoção.

Do protótipo atual àquele iminente por vir, quais serão os benefícios? Para Waldemir Bulla, sócio-diretor da Proviti Brasil, há “muitos”. Dentre esses, o olhar mais aguçado de investidores e analistas, além da valorização da imagem da empresa, dado a maior transparência e a decorrente melhora na Governança Corporativa. 
 
“Estes benefícios contribuem para atrair novos investidores e serve como ferramenta de captação de recursos no exterior. Todos esses fatores podem ser considerados como ganhos de competitividade”, completa Bulla.
 
Reciclagem em mente
Em todo processo inovador, uma adaptação se faz necessária. Partindo dessa premissa, as empresas brasileiras poderão encontrar dificuldades no ajuste, pois o País não dispõe em larga escala de profissionais suficientemente qualificados para atender a nova demanda.
 
“O processo de preparação de profissionais (reciclagem) será lento e gradual à medida que as novas normas passem a incorporar a rotina das empresas e os cursos de formação contábil”, discorre Bulla.
 
Além da área contábil, a imposição do IFRS envolverá quase todos os departamentos da empresa. TI (Tecnologia da Informação), estoques, cadastros, fornecedores, infra-estrutura tecnológica, RH (Recursos Humanos), setores que cuidam da área previdenciária e da auditoria externa, além de muitos outros.
 
Esclarecendo a novidade
A partir do início do processo, tanto investidores quanto analistas podem sentir-se desconfortáveis frente às mudanças. No olhar de Bulla, “campanhas de esclarecimento com livros que apresentem um comparativo da atual apresentação e de como irá ficar com o IFRS ajudariam a disseminar melhor a ideia”.
 
Neste contexto, o CFC (Conselho Federal de Contabilidade) preparou uma série de pronunciamentos técnicos para facilitar o entendimento. De qualquer forma, como parte do conjunto de demonstrações contábeis, uma nota de conciliação entre os padrões será apresentada ao final de cada resultado, o que deverá facilitar a leitura e o entendimento de tais demonstrações. 
 
Controvérsias inevitáveis
Apesar dos ganhos esperados, novidades tendem a gerar controvérsias. Para o sócio-diretor da Proviti Brasil, o maior impacto nas demonstrações contábeis será nos seguintes tópicos: arrendamento mercantil (leasing), benefícios e pensões a funcionários, avaliação de ativos e passivos com base no valor justo (conceito de fair value), constituição e registro de ativos intangíveis, concessões de serviços públicos e correspondente registro contábil, aplicação do conceito de impairment de ativos, efeitos de ajustes a valor presente em contas a receber.
 
Bulla cita um exemplo. “Num caso de contas a receber, quando falamos em ajuste a valor presente, a empresa só irá receber lá na frente e será necessário definir uma taxa que poderá ser definida por um órgão ou pela adoção de uma prática de mercado que o seu segmento esteja utilizando”.
 
Lucros com óculos
Entre controvérsias, os ganhos são evidentes. A nova forma de revelar o resultado por ação evidenciará diluições acionárias outrora imperceptíveis, pois trará uma visão mais completa da situação, pois o cálculo incidirá apenas sobre ações ordinárias.
 
Como o cálculo é mais abrangente, haverá uma fotografia de desempenho de cada ação. “No modelo de IFRS, dentro do cálculo deverão entrar outros aspectos, e não somente os resultados no período”, diz Bulla.
 
Segundo norma da IAS (International Accounting Standard), “todos os efeitos dilutivos devem ser considerados na denominação da média ponderada das ações ordinárias; por exemplo: opções de compra de ações concedidas a empregados, entre outros”.
 
Valor presente
 
Um outro aspecto interessante é o desconto a valor presente das receitas com o IRFS. Para Bulla, dependendo do setor, a mudança pode exercer impacto significativo. “Como exemplo, podemos citar o segmento imobiliário, que deverá ter ‘o contas a receber’ registrado, descontado a valor presente com o correspondente impacto no resultado do exercício na linha de receitas e/ou despesas financeiras”.
 
O sócio-diretor da Proviti Brasil cita um exemplo, no qual um consumidor compra um bem e lhe é oferecido um desconto caso o pagamento for à vista. “É isto o que vai ocorrer com as empresas. Agora, os prazos e as taxas de juros a serem utilizados dependerá de cada empresa e cada segmento”.

Veículo: Yahoo Notícias 19/04/2010