Crédito para auto dispara no ano

Adriana Cotias e Eduardo Belo, de São Paulo

Com projeções de que março tenha fechado com vendas recordes de veículos, com cerca de 330 mil unidades licenciadas, o primeiro trimestre de 2010 deixou para trás os sinais da crise nas carteiras de leasing e de Crédito Direto ao Consumidor (CDC). Os dois primeiros meses do ano já tinham mostrado o mercado ganhando impulso, com R$ 26 bilhões liberados nas duas modalidades de financiamento, 24% acima do observado em igual intervalo no ano passado, mas o fim da redução do Imposto sobre Produtos Industriais (IPI) para carros de baixa cilindrada acentuou o movimento no mês recém-encerrado.

"Março foi muito vigoroso, com performance acima da curva normal de crescimento e até melhor do que 2008, antes da quebra do Lehman Brothers", diz Luiz Montenegro, presidente da Anef, associação dos bancos das montadoras.

O executivo evita fazer estimativas sobre os desembolsos consolidados em março. Cálculos feitos pelo Valor Data indicam que os recursos liberados neste último mês de vigência da isenção do imposto sobre produtos industrializados (IPI) podem ter chegado a R$ 26,6 bilhões, com o total do trimestre rondando os R$ 50 bilhões. A conta foi feita com base na ponderação das taxas de crescimento de leasing e CDC em 12 meses. No primeiro trimestre de 2009, o valor liberado foi de R$ 36,5 bilhões. Ou seja, se o número se confirmar, o crescimento será de quase 40%.

O cálculo de R$ 50 bilhões pode, ainda, ser conservador. Leva em conta a variação sazonal (março vende mais que janeiro e fevereiro), mas não há como medir o imponderável impacto da corrida do consumidor às compras no último mês de tributação reduzida. Não será surpresa, portanto, se o número final superar essa marca.

Março respondeu por mais de 50% das vendas financiadas do trimestre - ou seja, a soma de janeiro e fevereiro -, afirma Sérgio Diniz, diretor Financeiro do Banco GMAC, ligado à General Motors. O volume de financiamentos do banco até o penúltimo dia de março havia ficado 17,6% acima da média projetada para o ano. "Foi um mês excepcional em relação a todas as bases de comparação", confirma André Miguel do Nascimento, superintendente de planejamento financeiro da Aymoré Financiamentos, do grupo Santander.

Mas nem todo movimento se deve ao benefício tributário. O aquecimento da economia e os prazos dilatados oferecidos pelas instituições ajudaram a impulsionar o financiamento de novos e usados.

O fim do estímulo fiscal para os automóveis populares vai impor um freio natural às operações nos próximos meses. Mas o desempenho para o ano não será comprometido, pois a indústria automobilística tem projeções para vendas recordes, de 3,4 milhões de unidades. A Anef estima que as carteiras de leasing e CDC fechem 2010 com um saldo de R$ 180 bilhões, 15% superior a 2009.

Mesmo as carteiras de leasing, que perderam competitividade em relação ao CDC desde que o governo baixou a alíquota do Imposto sobre Operações Financeiras - em dezembro de 2008 -, têm perspectivas de expansão. Segundo Osmar Roncolato, presidente da Abel, associação das empresas de arrendamento mercantil, os desembolsos neste ano devem crescer 20% em relação aos R$ 46 bilhões do ano passado. "Março teve uma corrida para aproveitar o IPI baixo, mas a partir de abril ou maio devemos ver taxas de crescimento mais normais", afirma.

"Estamos trabalhando no nosso pico de desembolsos", diz o diretor corporativo da Ford América do Sul, Rogélio Golfarb. Em março, o volume de financiamento no varejo, carteira administrada pelo Bradesco, aumentou 37% em relação a fevereiro, puxando praticamente todo o desempenho do ano até aqui. Mas no trimestre a expansão se limita a 1,2% em relação a 2009.

Veículo: Valor 01/04/2010