Juros e comemoração dos brasileiros

Você financiaria uma geladeira a uma taxa de juros de 57%? E que tal passar 12 meses pagando por uma única torradeira? Está no cheque especial? Prepare-se para pagar juros a uma taxa anual de 159%. Os brasileiros se envolvem nessas transações insensatas a cada dia. Mesmo os mais educados e melhor versados na arte de ganhar e gastar dinheiro podem ser seduzidos a comprar uma TV de tela plana de 50 polegadas numa promoção de vendas que promete o mesmo preço de US$ 3 mil, independente de você pagar pelo aparelho à vista ou em 12 prestações mensais. Não importa que os custos dos juros estejam embutidos no negócio.

O Brasil possui uma taxa de juros anual real (ajustada à inflação) de quase 7%, uma das mais altas do mundo. Se pensarmos nisso, perceberemos que uma TV paga à vista hoje não pode custar o mesmo que outra financiada em 12 meses. Quanto ao adiamento da satisfação, os brasileiros não querem nem saber disso. Eles preferem comprar hoje e pagar amanhã. Além disso, enquanto a prestação couber no contracheque mensal, para que se preocupar com cobrança de juros, certo?

A ignorância financeira é um dos motivos para o combate à inflação ser tão complexo e custoso. Se os consumidores se comportam como se as taxas de juros não fossem importantes, a demanda agregada se torna menos sensível �?  política monetária ou leva mais tempo para reagir às alterações na política. O índice anual de preços no varejo no Brasil dobrou, de 3% em março de 2007, para 6,1% em junho. Isso levou o Banco Central a elevar a taxa de juros referencial Selic em 175 pontos-base desde setembro, para 13%. O país já possui a quarta taxa básica nominal de juros mais alta do mundo entre as 52 taxas de bancos centrais monitoradas pela Bloomberg, atrás apenas da Venezuela (23%), Turquia (16,75%) e Islândia (15,5%). São esperados aumentos de taxa adicionais. No fim de julho, autoridades do BC disseram que atuarão "vigorosamente" para controlar a inflação.

Fazer a inflação retornar à sua meta anual de 4,5% pode se revelar uma tarefa desencorajadora, especialmente se os consumidores desprezam os custos dos juros e se as autoridades do governo fora do Banco Central continuam pressionando por mais crédito a custo menor. Em junho, o total de créditos em aberto atingiu um recorde de R$ 1,1 trilhão (US$ 680 bilhões), ou 37% do PIB do Brasil. Esse número pode parecer baixo, especialmente num momento em que o crédito supera os 60% do PIB nos EUA, México e Chile. Apesar disso, esses países desenvolveram sistemas de financiamento para a compra da casa própria, ao passo que o financiamento residencial no Brasil praticamente nem decolou.

O uso de financiamento imobiliário para a compra da casa própria só está começando, mas já há sinais de apetite insaciável por crédito.

A quantidade de crédito no Brasil continuou se expandindo a taxas anuais de mais de 30%, mesmo depois de o Banco Central ter começado a aumentar as taxas de juros. A expansão não cessou mesmo depois de o governo ter instituído algumas medidas que não foram especificamente dirigidas para frear o crédito, mas que mesmo assim podem ajudar. Em janeiro, na tentativa de reaver receita perdida depois de o Congresso ter abandonado a cobrança de um imposto de 0,38% que incidia sobre saques bancários, o governo dobrou o tributo chamado IOF sobre empréstimos bancários, de 1,5% para 3,38%. Naquele mesmo mês o governo brasileiro também impôs uma exigência de reserva mais elevada sobre operações de leasing, numa medida que deverá enxugar até R$ 40 bilhões de liquidez do mercado, mas que não conseguiu conter a expansão do crédito.

A economia brasileira está se expandindo a uma taxa anual de quase 6% e os consumidores continuam comprando a um ritmo ainda mais acelerado. As vendas anuais no varejo cresceram em mais de 19% desde janeiro e não dão sinais de moderação. As vendas de automóveis novos atingiram um recorde no primeiro semestre de 2008 e ficaram quase 30% acima do resultado no mesmo período do ano anterior. O uso de financiamento imobiliário para a compra da casa própria só está começando, mas os sinais do apetite insaciável dos brasileiros por crédito já estão claros. Empréstimos a pessoas que compram moradias ainda correspondem a apenas R$ 3,1 bilhões, mas a taxa de crescimento é espantosa: 89% nos 12 meses passados, de acordo com o BC.

Se, por um lado, a inflação acelera e os consumidores não demonstram nenhum comedimento, o governo, por sua vez, está preocupado com a possibilidade de que qualquer providência que venha a tomar para conter o crédito, além dos aumentos nos juros, produzirá uma desaceleração econômica antes das eleições municipais de outubro. O controle das pressões inflacionárias, portanto, recaiu quase inteiramente sobre o Banco Central. Além disso, deixar a moeda se apreciar contra o dólar não é mais uma opção tão boa como foi no passado. As contas externas do Brasil estão se deteriorando. O superávit anual na balança comercial despencou, indo de US$ 48 bilhões no ano anterior, para US$ 31 bilhões em junho, e a conta-corrente ficou deficitária pela primeira vez desde 2003.

Provavelmente os brasileiros aprenderão a sua lição da forma mais difícil. Eles continuarão comprando e tomando crédito adicional até que a inflação tenha erodido os seus rendimentos a ponto de terem de escolher entre comprar pão ou pagar a próxima parcela da torradeira. O derradeiro recurso antes do calote nas prestações da loja será tomar crédito caro de curto prazo. A extensão de crédito a pessoas que entraram no cheque especial - os que pagam aquela taxa anual de 159% - aumentou 8,1% em junho na comparação com o ano anterior. Dinheiro emprestado a portadores de cartão de crédito aumentou ainda mais: 18%.

Mas o crédito de curto prazo não está surtindo efeito. De todas as pessoas que tomaram emprestado para comprar produtos, 14% já não conseguem quitar os seus empréstimos, numa elevação de 12% ante março, de acordo com o Banco Central. Acho melhor parar de pensar naquela TV de tela plana.

Veículo: Valor Econômico 1° Caderno 15/8/08 Estado: SP