Venda no Brasil tira da crise o setor automotivo argentino

Daniel Rittner, de Buenos Aires

O apetite dos brasileiros por automóveis zero quilômetro salvou da crise as montadoras instaladas na Argentina e já fez a produção de veículos crescer 68% em janeiro, na comparação anual, mas provoca um efeito indesejável para os consumidores de Buenos Aires: quem vai às compras enfrenta demora de 30 a 60 dias, na média, para tirar um carro novo da concessionária. O problema atinge tanto os veículos produzidos no Brasil e exportados para a Argentina quanto o inverso (fabricados no país vizinho e vendidos no mercado brasileiro). Por trás da longa espera, que pode chegar a quatro meses no caso de modelos menos populares, está a gritante diferença de preço cobrado em cada lado da fronteira.
 
O valor de um Celta novo, três portas, modelo básico, com motor 1.0, ficava entre R$ 22 mil e R$ 23 mil em concessionárias brasileiras da General Motors consultadas na semana passada. O mesmo modelo era vendido na avenida Córdoba, uma das principais de Buenos Aires, por 40 mil pesos - exatos R$ 18.726 pelo câmbio de sexta-feira. Com uma diferença: o preço era para um automóvel com motor 1.4, geralmente a potência mínima na Argentina, direção hidráulica e ar-condicionado.
 
Para o ex-secretário de Indústria da Argentina e diretor da consultoria Abeceb.com, Dante Sica, as montadoras dão preferência ao atendimento do mercado brasileiro porque "lucram mais". De cada 100 carros que saem hoje das linhas de produção argentinas, 54 são exportadas para o maior sócio do Mercosul.
 
Do lado contrário, afirma Sica, as indústrias instaladas no Brasil vendem seus carros preferencialmente no mercado interno e veem as exportações à Argentina como um negócio complementar, mas certamente menos lucrativo, por causa dos preços mais baixos.
 
O presidente da Associação das Concessionárias de Automóveis da República Argentina (Acara), Dante Alvarez, confirma essa prática. Segundo ele, desde que o governo baixou o Imposto sobre Produtos Industrializados (IPI) de automóveis no Brasil, como forma de beneficiar o consumo e atacar a crise de demanda, as montadoras passaram a reduzir o abastecimento às concessionárias argentinas. "Normalmente teríamos carros no estoque para entrega imediata. Mas, sempre que o mercado brasileira se aquece, falta carro aqui", conta Alvarez.
 
A fila de espera varia muito conforme a marca e o modelo do automóvel, mas é incômoda a ponto de atrapalhar as vendas, segundo o presidente da associação. "Em janeiro, poderíamos ter vendido até 50% a mais", afirma Alvarez, dono de uma rede de concessionárias que recebe os consumidores com uma oferta de 47.900 pesos - equivalente a R$ 22.424 - pelo Peugeot 207, motor 1.4, com ar-condicionado e direção hidráulica. O mesmo carro tem sido anunciado no Brasil, na versão mais básica, por R$ 28.100.
 
Maximiliano Cartelli, gerente da Car One, uma concessionária da Chevrolet em Buenos Aires, diz que tem demorado pelo menos 30 dias para entregar o novo Agile a seus clientes.
 
O modelo, lançado recentemente, é montado na Argentina. Mas o motor e boa parte das peças usadas na fabricação são fornecidas por indústrias instaladas no Brasil.
 
Cartelli afirma que a maior espera é para os modelos mais caros, cujo estoque nas concessionárias é ainda menor, e pode chegar a quatro meses em alguns casos. "A demora é generalizada. Nesse contexto, ganha pontos com o cliente quem tem capacidade de fazer uma entrega rápida", diz.
 
Em tese, se a indústria automobilística no Mercosul ainda têm capacidade ociosa, poderia intensificar a produção para agilizar o abastecimento aos consumidores de um ou outro país, conforme as variações de demanda, sem deixar ninguém desatendido. O problema é que a ociosidade não é uniforme.
 
Algumas montadoras já trabalham à beira da saturação. Outras, que poderiam aumentar a oferta com a instalação de um terceiro turno de trabalho, continuam ainda muito cautelosas. "As montadoras se ajustaram à conjuntura depois da crise e ficaram resistentes a contratar mais gente", avalia o presidente da associação das concessionárias.
 
Segundo cálculos da entidade, a carga tributária que incide sobre os automóveis zero quilômetro representa 47,52% do preço final pago pelo consumidor. Um fator que ajuda a explicar as diferenças de valor é a forma habitual de pagamento. Na Argentina, 70% das compras são feitas à vista - seja com o pagamento integral do carro novo, o que é a minoria dos casos, seja com a troca de um veículo usado por outro zero. Com isso, aumenta a margem de manobra das concessionárias para oferecer desconto nos preços.
 
Os financiamentos têm, atualmente, taxa de juros que variam entre 24% e 25% ao ano. Apenas 1% dos negócios totais são feitos por meio de leasing. No início do ano passado, auge da crise mundial, o governo argentino lançou um programa para financiar com dinheiro público a compra de carros zero a taxas subsidiadas e em 48 parcelas, mas foram vendidas menos de 15 mil unidades dessa forma.

 

Veículo: Valor 09/03/2010