Risco de calote reduz lucro do Bradesco

O receio de que a inadimplência possa galgar participações mais sombrias sobre o total da sua carteira de crédito, hoje em 3,6%, levou o Bradesco a uma provisão extraordinária de R$ 597 milhões no último trimestre, que reduziu os lucros do banco no período e em 2008, informou ontem Márcio Cypriano, diretor-presidente da instituição. "O ano foi marcado pela forte mudança no cenário macroeconômico (por causa da crise) e observamos pequenas elevações nos índices de inadimplência." Cypriano, que deixa a presidência do banco no próximo dia 10 de março quando passará a fazer parte do seu conselho, afirmou também acreditar que exista atualmente pouco espaço para novas consolidações no sistema financeiro brasileiro. O Bradesco perdeu a liderança do mercado privado, em ativos, com a fusão entre o Banco Itaú Holding Financeira e o Unibanco, em novembro do ano passado.

"O mercado está extremamente enxuto. As alternativas são poucas e não há nenhuma que seja boa para o nosso acionista. Por isso, não temos estudado propostas (de aquisição) no momento", disse, quando questionado a respeito de especulações do mercado sobre eventuais negociações do Bradesco para a compra do BicBanco e do Citibank. O executivo ressaltou que a liderança está no DNA do banco, que foi fundado durante a Segunda Guerra Mundial e após pouco mais de uma década já estava entre os líderes no País. Cypriano considera que é possível crescer organicamente e, assim, voltar à liderança no médio prazo, em torno de cinco anos.
 
O Brasil oferece condições para a concretização dessa estratégia e a base geográfica do banco também é grande e tem condições para tal, afirmou. "Projetamos um crescimento do PIB (Produto Interno Bruto) de 1,5% para o País este ano, que é cinco vezes maior do que o estimado para o mundo." Entre as ações, o banco planeja aumentar ainda mais a sua base e conquistar 1,3 milhão de novas contas este ano. Tem traçado também a abertura de 174 agências e a ampliação dos pontos de atendimento por meio de correspondentes bancários em ao menos mais 3 mil. Foram 1,7 milhão de novas contas conquistadas e 196 novas agências abertas pela instituição em 2008, quando fechou com um total de 8,2 mil pontos de atendimento, entre próprios e de terceiros. "O banco vai crescer com oportunidades e não vamos fazer nenhuma aventura para isso."
 
Desempenho
 
O Bradesco fechou o quarto trimestre de 2008 com lucro líquido de R$ 1,6 bilhão, comparativamente aos R$ 2,19 bilhões do mesmo intervalo do ano anterior. Além das provisões extras contra créditos duvidosos, influenciaram na queda também R$ 454 milhões com alienação e impactos de marcação a mercado de investimentos, como títulos e ações, explicou o vice-presidente e diretor de relações com investidores do banco, Milton Vargas. Quando somados eventos extraordinários positivos e deduzidos os negativos, o lucro ajustado do banco sobe para R$ 1,8 bilhão no quarto trimestre. No acumulado do ano, a instituição somou resultado líquido de R$ 7,62 bilhões, queda de 4,9% ante o obtido em 2007.
 
Os ganhos bilionários, mais uma vez, foram puxados pela forte expansão do crédito. A instituição encerrou 2008 com uma carteira de R$ 215,34 bilhões (incluindo avais, fianças, valores a receber com cartão de crédito e cessão de crédito), uma evolução de 33,4% em um ano e de 9,2% em relação ao terceiro trimestre de 2008. Para este ano, por conta da crise, o banco está mais conservador, mas projeta um crescimento médio para a sua carteira entre 13% e 17%, acima das expectativas para o mercado no geral, de 13%.
 
As empresas, cujas fontes externas de financiamento praticamente secaram por causa da crise, bem como as captações de recursos por meio do mercado de capitais, devem conduzir boa parte desse crescimento, segundo Cypriano. O Bradesco estima uma elevação entre 14% e 18% na carteira de pessoa jurídica em 2009. Porém, bastante inferior em comparação ao aumento de 38,6% do ano passado, quando chegou ao final de dezembro em R$ 141,57 bilhões, com alta de 11,2% sobre o terceiro trimestre. O estoque de grandes empresas, com R$ 83,24 bilhões, cresceu 43,2% em 12 meses e 15,3% no comparativo trimestral. A carteira de pequenas e médias companhias fechou 2008 em R$ 58,33 bilhões, expansão de 32,6% e 5,9%, respectivamente. O banco estima aumento de 15% a 19% na sua carteira de pequenas e médias empresas em 2009 e de 13% a 17% no estoque de grandes companhias.
 
Cypriano disse que a instituição já sente uma retração na demanda por empréstimos e financiamentos de pessoas físicas desde meados do ano passado e, por isso, essa carteira deverá crescer entre 11% e 15% em 2009. No ano passado, o estoque alcançou R$ 73,76 bilhões, uma evolução de 24,4% em um ano e de 5,7% ante o terceiro trimestre. Os financiamentos para a compra de veículos por meio de crédito direto ao consumidor (CDC) caíram 3,2% em 12 meses e 1,4% no trimestre, atingindo carteira de R$ 20, 49 bilhões ao final de 2008. Essa foi a única queda no comparativo anual. Já no trimestral, houve redução de 0,8% no crédito pessoal (finalizando o ano com estoque de R$ 7,77 bilhões), 5,2% no rural (R$ 4,12 bilhões), 7,9% nos repasses do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social por meio do Finame (R$ 2,89 bilhões) e 4% no cheque especial (R$ 2,16 bilhões). As operações de leasing, foco estratégico do Bradesco em 2008, foram o grande destaque da carteira de pessoa física, com expansão de 247,4% em 12 meses e de 10,3% em relação ao terceiro trimestre, somando R$ 11,5 bilhões. O financiamento imobiliário cresceu 47,7% e 9,4%, respectivamente, para R$ 2,48 bilhões.
 
Em veículos - somando as diversas modalidades e os financiamentos a pessoa física e jurídica -, o estoque do Bradesco cresceu 42,2% em um ano e 2,7% no trimestre, para R$ 45,89 bilhões. Nesse segmento, o banco projeta crescer entre 9% e 16% este ano; em cartões, estima alta de 15% a 20%; e originar (novas concessões) cerca de R$ 5 bilhões em crédito imobiliário. Para o crédito consignado, cujo estoque ao final de 2008 era de R$ 6,83 bilhões (alta de 12% e 3,3%, respectivamente), a previsão é aumento entre 18% e 27%, a maior expectativa da instituição, considerando-se todas as áreas. Conforme Cypriano, o banco desembolsou R$ 4,6 bilhões para a compra de carteiras em 2008, principalmente, de consignado.
 
Vargas explicou que as provisões contra créditos duvidosos totalizaram R$ 3,2 bilhões acima do mínimo requerido pelos órgãos reguladores e que o Bradesco fechou 2008 com 5,9% de provisionamento médio sobre a carteira. Entretanto, em um ano a média de inadimplência sobre o total da carteira passou de 3,5% para 3,6%. Na pessoa física, subiu de 6,4% para 6,7% e na jurídica ficou praticamente estável.
 
Spreads
 
Em relação às reclamações do presidente Luiz Inácio Lula da Silva e de sua equipe econômica sobre os spreads (diferença entre o custo de captação de recursos e os juros cobrados pelos bancos), Cypriano explicou que eles são formados por diversos itens que compõem os custos dos bancos, como as provisões contra a inadimplência, por exemplo. No caso do Bradesco, o resíduo líquido (o que sobra para o banco) é de 26,93% do spread praticado pela instituição. "É uma questão complexa. Se fosse fácil, os bancos do governo, Banco do Brasil e Caixa Econômica Federal, que têm quase 50% do mercado, já teriam reduzido. E, se fosse fácil, o governo já teria baixado um decreto para reduzir os spreads e o sistema acompanharia.
  
   

Veículo: Gazeta Mercantil