Dívida do PT cresce e dirigentes não vêem solução até 2010

As eleições municipais endividaram ainda mais o PT e o passivo do partido é equivalente a onze vezes a dívida do PSDB. O financiamento de campanhas eleitorais elevou a conta de R$ 38 milhões, registrado em 2008, para cerca de R$ 45 milhões.

Ruy Baron/Valor
 
Berzoini: "A situação financeira não nos prejudicou em 2006 nem irá em 2010"
A situação financeira do partido não deverá melhorar até 2010, segundo análise de dirigentes petistas. No fim deste ano o PT fará eleições para escolher os novos dirigentes em todo o país e pretende fazer do Processo de Eleição Interna "o maior da história do PT". Em 2010, haverá a comemoração dos 30 anos do partido, a realização do Congresso - instância máxima partidária que reunirá dirigentes em Brasília - e as eleições estaduais e nacional, com a construção da candidatura que sucederá o presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Entre os gastos, há também a conclusão da transferência da sede de São Paulo para Brasília.
 
Mesmo com débitos das campanhas de 2004 e 2006, o PT gastou em 2008 cerca de R$ 5 milhões para ajudar candidatos, segundo o tesoureiro, Paulo Ferreira. Foram gastos com a realização de seminários, confecção de material publicitário para os diretórios, contratação de produtora para gravar depoimentos de ministros e do presidente Lula e o pagamento das despesas de deslocamento de ministros, como Dilma Rousseff (Casa Civil) e Fernando Haddad (Educação), que subiram em palanques no país.
 
Os valores, informados pelo tesoureiro, podem ser maiores. O PT explicou que não fechou o balanço referente a 2008 e que os dados são estimativas. Os números oficiais devem ser entregues até 30 de abril ao Tribunal Superior Eleitoral.
 
O presidente do PT, deputado Ricardo Berzoini (SP), informou que o partido está honrando todos os compromissos com credores. "Se não estivéssemos pagando, não conseguiríamos manter o partido funcionando", disse. "Nosso objetivo não é extinguir a dívida, mas mantê-la sob controle. Não somos massa falida e não vamos parar todas as atividades para pagar a dívida", explicou.
 
A dívida já foi maior: quando Berzoini assumiu a presidência do partido, em 2005, era de R$ 57 milhões.
 
Das campanhas eleitorais anteriores a 2008, a maior dívida é com a Coteminas, de R$ 15 milhões. O PT comprou 2,75 milhões de camisetas em 2004 da empresa para campanhas eleitorais e há cerca de um ano parcelou o pagamento. Nem o PT nem a Coteminas informaram quanto já foi pago. A empresa, fundada pelo vice-presidente da República, José Alencar, é dirigida por Josué Gomes da Silva, filho de Alencar. "A dívida foi parcelada, negociada e eles têm pago. Não cabe a nós dar detalhes do financiamento. Mas não vai ser o PT que vai nos dar prejuízo", afirmou Josué.
 
O PT, de acordo com o tesoureiro, ainda tem de pagar R$ 10, 7 milhões da campanha de 2006 da reeleição de Lula. Somam-se também os empréstimos contraídos com os bancos Rural e BMG. Em 2003, o PT contraiu empréstimo de R$ 2,4 milhões com o BMG, tendo o empresário Marcos Valério de Souza como um dos avalistas, e R$ 3,6 milhões com o Banco Rural, para pagar despesas da campanha de Lula, de 2002. São R$ 7,66 milhões, atualizados pelo IPCA até dezembro de 2008. Procurados pela reportagem, os bancos não se pronunciaram sobre os valores. O Banco Rural informou apenas que o pagamento da dívida "vem sendo cumprido religiosamente".
 
O tesoureiro citou também que o partido ainda tem de pagar gastos com gráficas e agências de publicidade de Minas Gerais.
 
O PT destacou já ter saldado a dívida com o Banco do Brasil: um leasing para compra de computadores, no valor de R$ 29 milhões, e R$ 4 milhões do uso de cheque especial.
 
Mesmo com dificuldades financeiras, o PT minimizou as eventuais dificuldades para construir uma candidatura forte para a sucessão do presidente Lula em 2010. "O que interessa em uma campanha não é o quanto o partido tem de dinheiro, mas a capacidade de mobilização política", disse Ferreira. "A situação financeira não nos prejudicou em 2006 e não vai atrapalhar em 2010. Temos um acúmulo político, elegemos cinco governadores, temos mais prefeitos e vereadores", afirmou.
 
Não há prazo para saldar a dívida. A maior parte da receita do PT vem dos recursos do Fundo Partidário. Em 2008 foram R$ 19,8 milhões, 14,67 % do fundo, o maior percentual. O Diretório Nacional fica com 40% dos recursos e o restante é repassado à Fundação Perseu Abramo e diretórios regionais.
 
O tesoureiro do PT disse esperar ainda doações relativas à campanha de 2006, de empresários que se comprometeram com o partido. Ferreira lembrou das doações feitas anualmente por empresários e de contribuições de filiados, parlamentares e detentores de cargo de confiança, mas não divulgou essa receita.
 
O Tribunal Superior Eleitoral informou que não há restrições quanto ao repasse de recursos por conta da dívida do partido. O TSE explicou que o repasse só é cortado quando há irregularidades.
 
O PSDB também financiou campanhas eleitorais em 2008, mas a dívida do partido diminuiu em relação ao 2007: eram R$ 12 milhões e agora a estimativa é de R$ 4 milhões, segundo o tesoureiro, deputado Marcio Fortes (RJ). O PSDB ajudou campanhas eleitorais em 2008 e deu atenção especial às candidaturas de Sebastião Madeira, em Imperatriz (MA), e a de Luiz Carlos Hauly, em Londrina (PR).
 
A dívida corresponde a restos a pagar da campanha de Geraldo Alckmin à Presidência, em 2006 - cerca de R$ 18 milhões. A previsão do partido, de acordo com Fortes, é de pagá-la este ano.
 
A receita do PSDB recebeu, em 2008, R$ 18,3 milhões do Fundo Partidário, 13,53% do total. É o terceiro partido que mais recebe. A direção nacional fica com 30%. O PSDB disse ter recebido em doações para o partido R$ 1 milhão. Os parlamentares também contribuem: os senadores e deputados federais dão R$ 300 por mês.
 
Questionado sobre a diferença entre o tamanho da dívida do PT e a do PSDB, Ricardo Berzoini explica que o valor é resultado de um "período de descontrole do partido". Na época, o tesoureiro era Delúbio Soares. "80% da dívida é desse período", disse o presidente do PT.
 
O DEM informou que a situação financeira do partido é boa e que não há dívidas. Segundo o tesoureiro, Saulo Queiroz, o partido não "gasta um tostão que não tenha arrecadado". Em 2008, o DEM recebeu R$ 14,56 milhões do Fundo Partidário. O partido conta também com o pagamento de R$ 300 reais por mês de cada deputado federal e senador.
 
O PMDB foi procurado pelo Valor, mas apesar de insistentes pedidos, o partido não divulgou as informações financeiras.

 

Veículo: Valor Econômico