Nos EUA, grandes grupos tentam ajustar-se à crise

Dois símbolos históricos do setor de mídia dos Estados Unidos fizeram pedidos de socorro, ontem, para tentar superar suas dificuldades financeiras, agravadas pela rápida deterioração da receita publicitária.

O sinal vermelho acendeu mais forte na Tribune Co., proprietária dos jornais Chicago Tribune e Los Angeles Times. Desde o início do dia se comentava a possibilidade de a companhia entrar com um pedido de recuperação judicial, conhecido nos EUA como Capítulo 11. �? tarde, os comentários se confirmaram. No pedido feito a um tribunal especializado de Wilmington, Delaware, a companhia de 161 anos relacionou ativos de US$ 7,6 bilhões contra dívidas de US$ 12,9 bilhões.

Mas o movimento mais simbólico das dificuldades atuais da mídia americana veio da New York Times Co., terceira maior editora de jornais e dona do "The New York Times", entre outras publicações. Para fazer frente a uma dívida de US$ 400 milhões, que vence em maio, o grupo informou que pode hipotecar seu quartel-general em Manhattan ou usá-lo em uma operação de arrendamento: o prédio seria transferido para uma empresa de leasing e, então, alugado pela própria empresa jornalística.

Localizada na Oitava Avenida, no lado oeste da Times Square, a torre de 52 anos foi projetada pelo arquiteto Renzo Piano e desde junho do ano passado abriga os escritórios centrais do grupo e a sede do "The New York Times".

Para cuidar da operação, a companhia contratou a imobiliária Cushman & Wakefield, confirmou a porta-voz Catherine Mathis.

A New York Times Co., que encerrou o terceiro trimestre com US$ 46 milhões em caixa, precisa saldar ou refinanciar uma linha de crédito de U$ 400 milhões, que expira em maio do ano que vem. Outro financiamento, de US$ 366,3 milhões, vence em junho de 2011.

Para equilibrar o declínio na venda de anúncios, acelerado pela crise econômica mundial, a New York Times Co já havia cortado os dividendos em três quartos no mês passado e eliminado empregos.

Neste ano, os fundos Firebrand Partners e Harbinger Capital Partners, acionistas da New York Times, começaram a pressioná-la para investir mais em internet, vender ou hipotecar seu arranha-céu e livrar-se de participações em times esportivos e jornais regionais. Para abrandar a disputa, a companhia ofereceu aos fundos dois assentos em seu conselho.

A Chicago Tribune Co. também já havia adotado medidas para tentar compensar a queda na receita publicitária. Em julho, o Los Angeles Times, quarto jornal dos EUA em circulação, demitiu 235 funcionários. Outras 75 posições foram suprimidas em outubro. O Chicago Tribune cortou 80 profissionais em julho.

Para levantar dinheiro, em setembro a Tribune vendeu uma participação de 10% no site de empregos CareerBuilder.com para a Gannett Co., maior editora de jornais dos EUA, por US$ 135 milhões.

Fundada em 1847, a Tribune foi comprada no ano passado pelo investidor Sam Zell, que pagou US$ 8,3 bilhões pela empresa. No pedido de proteção contra os credores, Zell fala de uma combinação de fatores "vai além da nossa vontade", numa referência à crise do crédito, ao endividamento da empresa e à situação econômica. Entre outros títulos da Tribune estão o "Baltimore Sun" e o "Orlando Sentinel".

A previsão é de que novos movimentos envolvendo grandes grupos americanos de mídia ganhem forma nas próximas semanas. Há dias circulam notícias de que o grupo McClatchy estaria procurando comprador para uma de suas principais propriedades: o jornal Miami Herald. 

Veículo: Valor Econômico Empresas 9/12/08 Estado: SP