Gigantes da gestão

Num momento em que os fundos de varejo, alta renda e previdência enfrentam uma das piores sangrias da sua história, a união de Itaú e Unibanco revitaliza a adormecida briga dos gigantes da área de gestão. Segmento relegado a segundo plano dentro dos conglomerados financeiros desde o início do ano - diante do aumento das necessidades de captação para escoar o crédito - esta nova etapa de consolidação que se desenha no mercado bancário local significará para os administradores de recursos a preservação de margens, mesmo com o encolhimento do setor. Com a eventual incorporação de carteiras e redução dos custos de distribuição, seria de se esperar que os ganhos de escala e de produtividade se traduzissem em taxas de administração mais baixas para os investidores. Mas nem sempre é assim.

Só em outubro, os resgates nos fundos de varejo, alta renda e de previdência chegaram a R$ 23 bilhões, segundo os dados do site financeiro Fortuna. No ano, os saques já somam R$ 69 bilhões, um volume sem precedentes e que remete a cenários de ruptura, diz o diretor do Fortuna, Marcelo D'Agosto. "�? um processo que vem de forma constante e crescente, é como se houvesse quebra de confiança como ocorreu na crise da marcação a mercado." Para o especialista, nesse ambiente em que o setor de fundos visivelmente perde forças, a combinação de Itaú e Unibanco dá às instituições maior musculatura para calibrar custos, aproveitar sinergias e manter a rentabilidade do negócio de gestão, que ainda não se distingue da atividade bancária como um todo.

�? bom para o sistema financeiro nacional contar com instituições robustas na disputa por fatias no mercado e, num intervalo entre um ano e um ano e meio, esses ganhos de escala podem até se traduzir, como em qualquer indústria, em custos menores para os consumidores, diz o economista-sênior da Lopes Filho & Associados, João Augusto Salles. "Seria uma forma de manter a atual base de clientes e criar fidelização, além de evitar o avanço da concorrência." Numa fase posterior, porém, quando o setor tiver uma nova configuração, as taxas voltam a subir, numa espécie de acordo tácito, completa.

O segmento de administração de recursos contribui para os resultados dos conglomerados pelo aumento das receitas com prestação de serviços. Conforme exemplifica o analista da Austin Rating Luis Miguel Santacreu, no primeiro semestre, as taxas de administração representavam 20% da receita total com prestação de serviços, no caso do Itaú. "Individualmente, os fundos só perdem para os cartões de crédito como geradores de receita no Itaú." No Unibanco, no mesmo período, a participação girava em torno de 9%.

Toda fusão tem como objetivo a otimização de custos e com Itaú e Unibanco não será diferente. Na área de gestão de recursos, em que escala é fundamental, a transação deverá trazer economia à medida que fundos de investimentos com características semelhantes de ambas as instituições sejam unificados. "O fundo resultado da fusão terá um ganho de patrimônio, diluindo custos fixos, como auditoria e taxas de registro na CVM", destaca Santacreu.

Para ele, dificilmente os cotistas serão beneficiados com uma redução das taxas de administração dos seus fundos, especialmente no varejo, em que os custos para o aplicador costumam ser maiores. "Além de o pequeno investidor não enxergar as altas taxas de administração cobradas nos fundos de rede como um pedágio pesado para deixar o dinheiro aplicado, a comparação entre bancos nesse segmento é muito difícil de ser feita", avalia. "O investidor tende a aplicar seus recursos no banco em que tem conta e ninguém troca de banco a cada três meses."

Para o analista, os grandes bancos de varejo seguirão privilegiando as receitas, mais do que uma boa classificação nos rankings de rentabilidade. "Isso não quer dizer que eles vão abrir mão do retorno, eles têm uma imagem a preservar, mas seus fundos poderiam render muito mais."

Desde o início do ano, quando o Banco Central (BC) elevou o compulsório das captações feitas por meio das subsidiárias de leasing, uma fonte barata de recursos que vinha sendo direcionada ao crédito praticamente secou. A crise internacional, por sua vez, fechou as portas para as emissões externas e forçou as instituições a direcionarem as aplicações dos correntistas para os seus Certificados de Depósitos Bancários (CDB). Nessa toada, o custo de captação dos bancos subiu de 100% para até 150% do CDI, diz Salles, da Lopes Filho, e as aplicações em fundos por intermédio da rede de agências se esvaziaram.

Além da fuga dos multimercados, muitos investidores não suportaram a oscilação das cotas em carteiras conservadoras, como os fundos de renda fixa, e simplesmente migraram para o CDB, de mais fácil de compreensão. Mas quando a situação se acalmar, o setor vai se recompor, acredita o professor da Faculdade de Economia e Administração (FEA/USP) André Oda. Agora, se os ganhos de escala que a fusão Itaú e Unibanco vão significar menores custos para os aplicadores, serão os próximos passos da concorrência que vão determinar.

Uma megaconsolidação no setor bancário local, e conseqüentemente na área de gestão de recursos, é inevitável, diz Fernando Ganme, sócio da Capital Investimentos. Especialmente depois da compra do Banco Real pelo Santander. Para ele, o mercado brasileiro deve ter quatro grandes bancos privados e dois públicos. A concentração, no entanto, pode não ter um impacto negativo. Além do ganho em termos de solidez do setor, a disputa entre os possíveis seis grande bancos ficará ainda mais acirrada. E o Santander é um banco bem agressivo, inclusive no setor de fundos, diz Ganme.

 

Veículo: Valor Econômico Índice Geral 05/11/08 Estado: SP