Riqueza sem capital

Pegue-se a situação da construção civil. Várias construtoras se capitalizaram na bolsa, aplicaram na compra de terrenos e foram às obras contando com financiamento inviabilizado ao preço atual das ações. O governo se dispõe a ajudá-las. A questão é que a liquidez curta também derruba o valor dos ativos imobiliários. Refinanciá-los, sem aplicar um desconto, implica transferir renda em favor de negócios privados. Ignorar a deflação, que tira a banca privada do mercado, equivale a reabrir o famigerado hospital de empresas.

Sem crédito fácil, farto e barato muita coisa deixa de existir. �? o que leva as siderúrgicas chinesas e bater pé contra o aumento de preço do minério de ferro desejado pela Vale. �? também o que fez o setor de celulose no Brasil a parar os projetos de novas fábricas. �?, enfim, o que encurtou os financiamentos de carros, parte devido ao receio de inadimplência do consumidor em cenário de dificuldade econômica, parte porque os fundos que irrigam operações da banca e as operações de leasing ficaram escassos. Talvez por muito tempo.

O problema é de crédito na superfície, mas de financiamento geral nas profundezas. O crédito era criado pelo giro rápido dos ativos. Isso acabou e sem ele a economia diminui. Essa é a característica inédita dessa crise no mundo: a deflação dos ativos financeiros e, portanto, de tudo o que a ciranda sustentava. Quanto mais demorar a compreensão do fenômeno, maior será a recessão que se insinua.

Veículo: Correio Braziliense Política 21/10/08 Estado: SP