Pacote contra 'maré alta'

Assustado com o total fechamento dos principais canais de crédito, a alta expressiva do dólar, a queda livre das bolsas e o pedido de socorro dos bancos menores, que não estavam conseguindo fechar seus caixas, o governo reconheceu ontem que a crise atingiu seu pior momento e lançou um pacote de seis medidas para reduzir os efeitos da turbulência no Brasil. Entre as ações estão o uso das reservas internacionais para financiar o comércio exterior e a permissão para que o Banco Central (BC) financie a carteira de crédito diretamente aos pequenos bancos. As medidas foram anunciadas ao longo do dia, começando com a retomada, depois de dois anos, dos leilões de swap cambial, operações no mercado futuro em que o BC oferece proteção contra a alta do dólar e, em troca, recebe a variação dos juros.

Dos US$ 2,1 bilhões ofertados, o mercado adquiriu 70% (US$ 1,470 bilhão). No último sábado, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva havia minimizado os efeitos da crise, afirmando que aqui, "se chegar, vai ser uma marolinha".

�? tarde, o ministro da Fazenda, Guido Mantega, e o presidente do BC, Henrique Meirelles, anunciaram juntos o uso das reservas. O governo repassará dólares aos bancos nacionais privados no exterior e receberá, como contrapartida, "títulos de primeira linha" e outros tipos de papéis que ainda serão definidos pelo Conselho Monetário Nacional (CMN). Haverá ainda o repasse de R$ 5 bilhões do Tesouro Nacional ao BNDES para a modalidade pré-embarque, também de crédito aos exportadores. O CMN fará uma reunião extra para regulamentar todas as medidas.

" Estamos usando de forma inteligente as reservas internacionais " afirmou Meirelles.

No início da noite, o presidente Lula assinou medida provisória (MP) que acabou confirmando os rumores de dificuldades dos pequenos bancos. Apesar de, na última sexta-feira, o BC ter autorizado grandes instituições a comprarem carteiras de crédito de bancos de pequeno e médio portes, não houve acordos e as ameaças continuavam. Segundo Meirelles, será implementada uma linha de crédito diferenciada, pela qual o BC poderá comprar as carteiras, garantindo capital de giro aos pequenos e médios.

Mas ele nega risco urgente dos bancos: " Hoje não vemos a necessidade de exercer esta prerrogativa. �? algo que não necessariamente será utilizado nos próximos anos.

Para economista, são "ações antipânico"

Meirelles negou que o governo esteja mudando o tom de seu discurso: " Estamos sendo coerentes. Desde o início dissemos que agiríamos e tomaríamos as medidas à medida que fosse necessário. Esta crise é importada. Temos que agir à medida que ela se desdobra internacionalmente.

Na avaliação do vice-presidente da Associação de Comércio Exterior do Brasil (AEB), José Augusto de Castro, seriam necessários, a curto prazo, entre US$ 10 bilhões e US$ 13 bilhões em financiamentos às exportações. Esses valores correspondem a pelo menos um mês de receitas em vendas brasileiras no exterior.

Para Carlos Tadeu de Freitas, ex-diretor do BC, as medidas vão além das competências do BC e podem gerar prejuízos para o próprio BC, Tesouro e contribuintes. Já Andrew Storfer, vicepresidente de Estudos da Anefac, associação que reúne executivos de Finanças, diz que, em emergências, o BC pode agir de forma não usual: " As medidas são ações antipânico.

O economista Natan Blanche, da consultoria Tendências, diz que o governo precisa agir rápido, mas, em sua opinião, tem se mostrado lento: " Um carro blindado agüenta um tiroteio, mas, se for mal conduzido, também capota

O QUE O GOVERNO ANUNCIOU PARA ENFRENTAR A CRISE

EXPORTA�?�?ES

As reservas internacionais do país serão usadas para financiar as exportações no exterior. Com o dinheiro, o Banco Central (BC) comprará títulos de bancos que financiam o comércio exterior brasileiro. Para manter os atuais níveis das reservas, os bancos terão que recomprar esses papéis em prazo determinado O BC poderá também conceder empréstimos em moeda estrangeira diretamente aos bancos nacionais privados, no exterior O governo repassará R$ 5 bilhões para o BNDES, na modalidade de pré-embarque, também de crédito aos exportadores Foram retomados os leilões de swap cambial, ou seja, contratos que cobrem a variação da cotação do dólar e que são usados como proteção por empresas com dívidas em dólares e para dar liquidez aos importadores. Nesses contratos, o BC oferece a variação do câmbio e, em troca, recebe a variação dos juros

BANCOS PEQUENOS E M�?DIOS

O BC poderá comprar a carteira de crédito de bancos pequenos e médios, garantindo-lhes capital de giro. Não há limite, preliminarmente, para os desembolsos Empresas de leasing podem passar a se financiar com a emissão de letras de arrendamento mercantil.

Para captar dinheiro atualmente, só podem lançar debêntures

O QUE JÁ FOI ADOTADO

O BC retomou os leilões de dólares no mercado à vista para ampliar a oferta da moeda.

Foi reduzido o recolhimento compulsório que os bancos fazem ao BC O setor agrícola receberá R$ 5 bilhões em empréstimos do Banco do Brasil Foi permitida a dedução do compulsório de bancos do dinheiro que for usado para comprar carteira de instituições menores R$ 1 bilhão será usado para cooperativas agropecuárias O BNDES terá R$ 7 bilhões do FGTS.

Liberação de R$ 350 milhões do Fundo de Amparo ao Trabalhador (FAT) para a agricultura familia

Veículo: O Globo O Globo Digital 07/10/08 Estado: RJ