Perdidos na Crise

Má avaliação de causas da crise, nos EUA e aqui, dispara o ajuste selvagem da riqueza financeira

Se antes da monumental urucubaca dos bancos americanos e europeus já se falava de crescimento econômico muito mais modesto no Brasil em 2009, coisa de 3% a 4%, contra 5,4% em 2007 e outro tanto este ano, as apostas otimistas viraram loteria com a crise botando para quebrar, literalmente, a banca no mundo. O governo se defende como pode, preocupado em livrar, pelo menos, o investimento em obras de infra-estrutura, o financiamento de exportações e o crédito rural.

O governo começou negando que a crise atingisse o país, o que não impediu o Banco Central de amenizar o recolhimento compulsório dos recursos da banca e de empresas de leasing, reagindo à secura das linhas de crédito externas que irrigam financiamentos domésticos. Depois, reintroduziu leilões de dólares. Hoje, tudo parece pouco, com o dólar acima de R$ 2,00 e a bilionária razia na Bovespa.

O presidente Lula acordou formalmente para a ameaça só na última sexta-feira " por coincidência ou não, após se reunir com o colega da Venezuela, Hugo Chávez. Saiu o discurso da ilha de prosperidade e entrou o da economia fustigada pelas seqüelas da especulação nos EUA e a omissão do presidente George W. Bush, mas ainda buscando diferenciar em meio à crise a situação mais confortável do Brasil.

Agora, já não há mais certeza, embora se mantenha a preocupação de evitar que o momento aziago da economia prejudique a imagem do presidente, o que, convenhamos, é uma motivação egoísta, arriscada até, pois inibe e retarda a tomada de medidas não populares.

O sentimento real entre os formuladores da política econômica no entorno de Lula é que nem mesmo o pacote de saneamento do mercado financeiro dos EUA aprovado pelo Senado, e espera-se a ratificação pela Câmara ainda hoje, depois de já tê-lo rejeitado, será capaz de estancar a sangria do crédito e recuperar a confiança.

Se tudo correr bem, garante um gás até as eleições parlamentares em 4 de novembro, quando também será eleito o sucessor de Bush. A expectativa é que só então sejam tomadas medidas mais amplas que o fundo de US$ 700 bilhões, se for mesmo autorizado pelo Congresso, para o Federal Reserve usar na compra de papéis podres da banca.

Veículo: Correio Braziliense Política 03/10/08 Estado: DF