Negar crédito agrícola indica gravidade da crise

As autoridades econômicas brasileiras finalmente abandonaram a atitude de negar a hipótese da grave crise internacional alcançar o País. O sinal mais convincente desse risco chegou com a forte escassez do crédito atingindo, em cheio, as expectativas da próxima safra agrícola. Os técnicos do Ministério da Fazenda reconheceram que o governo tomou consciência do problema e estuda alternativas para garantir os recursos que os produtores precisam. A primeira alternativa seria liberar os valores dos depósitos compulsórios recolhidos pelos bancos como seguro para quebra de safra. Devolver o recurso estocado no Banco Central (BC) para as mãos dos agricultores seria ainda mais eficiente do que ampliar a parte dos depósitos à vista e da poupança rural aplicada em crédito agrícola que na prática funciona como outro compulsório exigido dos bancos. Essa retenção não é modesta, 25% dos depósitos à vista e 65% da poupança rural devem ser alocados em crédito agrícola.

�? verdade que desde março o Conselho Monetário Nacional já flexibilizou essa exigência de compulsório para ajudar os produtores rurais. A rigor, era o mesmo mecanismo que o BC já vinha concedendo ao anunciar o adiamento da implementação dos compulsórios maiores nas operações de leasing. As autoridades monetárias, porém, esperaram um pouco mais para tirar dinheiro do crédito via menos recursos para leasing e agora propõem a mesma iniciativa para os empréstimos agrícolas.

O Banco Central acelerou a diminuição dos compulsórios abrindo mais recursos para a área agrícola porque os problemas de crédito se avolumaram. Como registrou matéria publicada na edição d e ontem da Gazeta Mercantil, grandes produtores procuraram os recursos já pré-aprovados e não os obtiveram. A negativa foi feita para produtores que já tinham financiado um terço da produção por cinco safras seguidas com o mesmo agente de crédito. A negativa de financiamento foi feita para tomador com esse perfil. Não há dúvida de que a escassez de crédito alcançou padrões inéditos. Nesse quadro, não é uma novidade que o Banco do Brasil sofra uma pressão igualmente inédita para manter esses financiamentos rurais, uma vez que as tradings, que tradicionalmente faziam essas operações, cortaram as ofertas de crédito. Pela volatilidade dos preços no mercado de commodities e pela impossibilidade de abertura de créditos na frente externa depois do estouro da bolha imobiliária norte-americana.

�? indiscutível que a contaminação da crise externa, em uma economia com o perfil atual da brasileira, se dará pelo crédito atingindo fortemente, primeiro, o financiamento da produção e o consumo direto e, depois, a capacidade de investimento. Nesse caminho, a exportação será duramente atingida, principalmente se o governo não agir muito rápido. Dados do BC já revelaram que o crédito à exportação diminuiu 6,6% em agosto, em relação a julho. Na comparação anualizada, essa queda alcança 19,8%. E vale notar que os dados se referem não ao auge da crise alcançado em setembro. Não é por outra razão que o BC mostrou que os exportadores tomaram em agosto apenas US$ 6,7 bilhões para financiar suas vendas , um valor 32,5% menor que o de abril de 2007, quando começou a crise do subprime de forma mais consistente. Com certeza, esses números devem agravar-se bastante para o mês de setembro.

A escassez de crédito já gerou reflexos na atividade industrial . A Sondagem da Indústria de Transformação, divulgada anteontem pela Fundação Getulio Vargas, mostrou que o setor já dá sinais de arrefecimento de atividade. Não foi apenas a taxa de ocupação do parque produtivo que baixou, mas, pela primeira vez desde agosto de 2006, o indicador de nível de demanda global (a soma das vendas internas e externas) caiu em relação ao mesmo mês do ano anterior. Em setembro esse indicador foi de 121 pontos, ante 124 no mês de setembro de 2007. O nível de estoque da indústria de transformação aumentou e a disposição para contratações caiu. Não foi por outro motivo que um grande banco já anunciou o aumento no rigor para concessão de crédito à pessoa física.

Se a atividade econômica recuar em velocidade imprudente, caberá ao BC injetar recursos no mercado para mantê-la em níveis aceitáveis, embora o mesmo BC mantenha suas preocupações com a inflação. Em outras palavras: a crise chegou e o governo precisa se decidir se agirá conforme as exigências da conjuntura ou conforme as regras da ortodoxia. Por enquanto, o governo fez a segunda escolha, como as dificuldades dos agricultores por crédito demonstra.

Veículo: Gazeta Mercantil Editoriais 02/10/08 Estado: SP