Padrão internacional pode ter armadilhas

No mais recente exemplo da declinante liderança financeira dos Estados Unidos, a Securities and Exchange Commission (SEC) quer trocar as complexas normas contábeis do país por um conjunto mais simples de princípios internacionais. �? um grande passo rumo a um padrão mundial mais simples - uma necessidade para a criação de mercados integrados. Mas a adoção do modelo, que é relativamente novo e não foi testado, tem lá suas armadilhas.

Livrar-se das normas americanas, conhecidas como GAAP na sigla em inglês, pareceria algo absurdo uma década atrás. Na época, investidores e empresas, dos EUA e outros países, viam o GAAP como o padrão-ouro, um sistema transparente para a demonstração de lucros. Como um número maior de empresas começou a reportar resultados em GAAP, parecia que esse seria a escolha dos contadores.

Mas o GAAP ficou tão complicado que acabou entrando em colapso. Segundo a PwC, os princípios americanos abarcam 25.000 páginas, ante 2.500 páginas do padrão internacional (IFRS), que está sendo promovido pela SEC. "�? melhor criar algo novo do que remendar algo velho e ultrapassado", diz Robert H. Herz, presidente do Financial Accounting Standards Board (Fasb), que supervisiona o GAAP.

As empresas abertas americanas adotarão o IFRS até 2016. A mudança, que alguns grandes conglomerados poderão fazer já em 2010, criará um regime contábil comum. As empresas também poderão analisar melhor as oportunidades de aquisição internacional, diz William T. Keevan, diretor da consultoria SRA International.

Mas mesmo com as empresas falando a mesma linguagem, as histórias financeiras poderão ser diferentes. Isso porque o IFRS tende a ser amplo, dando flexibilidade. O GAAP, por exemplo, tem mais de 200 regras para o registro de receitas, enquanto no IFRS há só duas. "Basicamente, você pode fazer quase tudo que quiser", diz Herz.

No fim das contas, isso poderá levar a variações mais amplas na demonstração de lucros. Um estudo feito por Jack T. Ciesielski, do "The Analyst´s Accounting Observer", constatou que, entre 137 empresas que publicaram resultados de 2006 pelos dois métodos, 63% mostraram lucro maior pelo IFRS. Na média, o lucro subiu 11%.

Mesmo sob um único sistema, as interpretações culturais e de fiscalização podem variar de país para país. E estimados 29 países que usam o IFRS acrescentaram suas próprias exceções às regras, desmontando o propósito de um padrão globalizado. "Poderemos conseguir uma coisa que as pessoas vão achar que é uniforme, mas não será", diz Lawrence A. Cunningham, professor da George Washington University.

David Henry , BusinessWeek 08/09/2008