Montadora crescerá abaixo do esperado

Resultado fraco do primeiro quadrimestre leva setor a estimar aumento máximo de 3% nas vendas em 2012, ante previsão inicial de 5% 

CLEIDE SILVA - O Estado de S.Paulo 

Com um quadrimestre marcado por pátios lotados, vendas em queda e cortes na produção, a indústria automobilística brasileira não vai conseguir crescer nos níveis inicialmente previstos para o ano. O aumento de 4% a 5% nas vendas projetado pelas fabricantes e empresas de consultorias deve ficar entre 2% e 3%. 

Dependente do financiamento em 70% das vendas, o setor teve suas previsões freadas pelos bancos. Diante da alta da inadimplência, as torneiras do crédito, até pouco tempo escancaradas, estão semi-fechadas. 

"As financeiras aprovavam 65% das solicitações de crédito até janeiro e hoje só aprovam 45%", constata o presidente da General Motors América do Sul, Jaime Ardila. "A situação é especialmente difícil no Nordeste, há pouco tempo a região mais dinâmica do mercado." 

Cledorvino Belini, presidente da Associação Nacional dos Fabricantes de Veículos Automotores (Anfavea), vai esperar o fim de junho para refazer as contas da entidade. Apesar de otimista, ele admite que será difícil atingir a meta. "Para recuperar a queda do primeiro quadrimestre e atingir o índice projetado, teríamos de crescer, em média, 1,7% a 1,8% ao mês daqui para frente." 

Na visão de Belini, se nos próximos meses ocorrer uma irrigação de crédito no mercado, a recuperação será menos difícil. Tanto ele quanto Ardila não acreditam, porém, que a intenção manifestada pelo governo de incentivar os financiamentos via leasing possa surtir efeito significativo nas vendas. 

Fábricas e concessionárias têm estoques para cerca de um mês e meio de vendas, ou 366,5 mil veículos à espera de compradores, para um mercado que consumiu, no mês passado, 257,8 mil automóveis, comerciais leves, caminhões e ônibus. O quadro levou diversas montadoras a adotar medidas para reduzir a produção, como férias coletivas e semana mais curta de trabalho (ler mais na pág. B15). 

"Os próximos meses serão de ajuste, com redução de produção para diminuir estoques", constata o economista do Itaú Unibanco Aurélio Bicalho. Para ele, o mercado deve iniciar recuperação gradual a partir do último trimestre, movimento que será mais consistente em 2013. 
Dados macroeconômicos não apontam para recessão no setor, diz Bicalho. As expectativas são de manutenção de empregos, melhora da renda, queda da inadimplência e volta do crédito. 
"Nossas pesquisas mostram que ainda há uma enorme vontade dos clientes em comprar carro e muita tranquilidade e confiança em relação ao emprego e nível de renda, que são os fatores mais importantes no nosso mercado", confirma Ardila. "No entanto, os níveis de endividamento já são altos e, para muitos consumidores, a exigência de entrada mínima de 20% num financiamento para quatro anos virou impedimento para a compra." 

Na opinião de Ardila, a recente queda dos juros terá efeito no médio prazo, provavelmente a partir de agosto, mas não será suficiente para garantir o crescimento esperado pela indústria neste ano. A GM agora prevê alta de 2% nas vendas, para cerca de 3,7 milhões de veículos, ainda assim um volume recorde. 

A analista da Tendências Consultoria Mariana Oliveira também acredita que a alta da inadimplência vai começar a ceder no segundo semestre, e o crédito voltará gradualmente. A Tendências revisou de 7,4% para 3,6% a previsão de crescimento das vendas de automóveis e comerciais leves neste ano "por causa dos problemas com crédito". 
Investimentos. O quadro atual não afetou os planos de investimentos. 

Segundo Marcelo Nascimento, chefe do departamento da área de pesquisa e acompanhamento do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), não há sinais de cancelamento ou postergação de investimentos previstos por montadoras e autopeças. Para o período 2011 a 2015, os projetos anunciados somam R$ 55,6 bilhões, 58% a mais que no período anterior, em valores corrigidos. 

Esses dados, na visão de Nascimento, alimentam as perspectivas de longo prazo do setor, com a avaliação de que a economia brasileira continuará crescendo. "As dificuldades atuais com crédito, inadimplência e altos estoques são um fator conjuntural." 

Ele lembra que o cenário é diferente do verificado em 2008 e 2009, quando projetos foram suspensos. "O momento atual é de correção, mas no segundo semestre espera-se dinamismo melhor da economia", diz. No segundo semestre, duas novas fábricas entram em operação em São Paulo, uma da coreana Hyundai, em Piracicaba, e a outra da japonesa Toyota, em Sorocaba. 

Veículo: O Estado de São Paulo - 14/05/2012