Governo estuda mudanças no leasing para reativar venda de carros

Temor é de que os elevados estoques nos pátios das montadoras levem a um processo de demissões, que poderiam atingir outros setores 

RENATA VERÍSSIMO, ADRIANA FERNANDES / BRASÍLIA - O Estado de S.Paulo 

Preocupado com os estoques elevados nos pátios das montadoras, o governo estuda medidas que possam aumentar a venda de automóveis no País. A maior preocupação é com o curto prazo, para evitar demissões no setor que podem contaminar outros segmentos da economia. O crédito para a compra de veículos está estagnado e a equipe econômica tenta destravar as amarras para a concessão de leasing, segundo apurou o 'Estado'. 

Esse tipo de operação já representou 44% do total de crédito ofertado pelo mercado para a aquisição de automóveis, mas ficou em 12% em março deste ano, segundo dados doBanco Central. O ministro da Fazenda, Guido Mantega, vai mobilizar os governadores para mudar as legislações estaduais que desestimulam a oferta de leasing pelos bancos. Alguns Estados, como São Paulo, passaram a cobrar multas de trânsito e de IPVA das instituições financeiras que, até o fim do contrato, são as "proprietárias" dos veículos. 
"Isso cria um risco para os bancos. A maior parte dos bancos deixou o leasing e foi para outra modalidade de crédito, que tem custo maior", afirma uma fonte da equipe econômica. "Essa mudança na estrutura de mercado foi induzida por um movimento regulatório dos Estados que inibiu uma forma barata de crédito, que é o leasing", argumenta. 
Segundo outra fonte, as negociações ocorrerão primeiro com o governador de São Paulo, Geraldo Alckmin, Estado onde o problema se concentra de forma mais forte. 

O governo está com a atenção especial para a queda nas vendas das montadoras porque o setor é considerado um dinamizador do crescimento econômico. 

Como o ritmo de expansão do Produto Interno Bruto (PIB) nesse segundo trimestre continua bem abaixo do previsto pelo governo, há na equipe econômica vozes que defendem a adoção de medidas emergenciais para ajudar a reduzir os estoques. A imagem de pátios cheios não transmite uma mensagem positiva, inclusive para o exterior, do desempenho econômico do Brasil. 

Os bancos públicos também estão orientados a aumentar a oferta de crédito para aquisição de veículos. A parada nos financiamentos para esse segmento ocorreu por causa da alta da inadimplência, que aumentou a cautela das instituições financeiras. O governo acha que o avanço dos calotes, que bateu recorde em fevereiro e março, é conjuntural e deve cair nos próximos meses. 
Problema pontual. Fonte do governo diz que a inadimplência no financiamento de veículos é problema pontual, criado pelas operações contratadas em 2010. Naquela época, bancos ofereciam crédito em até 70 meses e, às vezes, sem entrada. 

A tranquilidade do governo sobre o comportamento da inadimplência vem especialmente do fato de que, depois disso, no fim daquele mesmo ano, o BC tomou medidas para conter a oferta desse crédito. Por isso, o problema estaria "encaminhado". 

Os dados de março, divulgados pelo BC, mostraram estabilidade nas carteiras dos bancos nas linhas para compra de veículos. Os números sinalizaram que os novos financiamentos não estão superando as operações de empréstimos quitadas. 

Paralelamente, o governo vai lançar um pacote de estímulo ao setor de autopeças, como já antecipou ao Estado o ministro do Desenvolvimento, Indústria e Comércio, Fernando Pimentel. 

O objetivo, segundo Pimentel, é elevar o conteúdo tecnológico dos componentes e reduzir as importações de partes de veículos. 

Nesse caso, não se espera resultados imediatos, mas uma sinalização importante de desenvolvimento do setor para os próximos anos, que garantirá mais empregos no País. 

Veículo:  O Estado de S.Paulo - 09/05/2012